MARQUISES. UM PERIGO?
Outro dia li um artigo da Aline Alves, no site da Pini, sobre o que ela chamou de “Perigo Suspenso”.
Falava sobre um acontecimento, “em fevereiro de 2006, a queda de uma marquise na Universidade Estadual de Londrina, no Paraná, provocou a morte de duas pessoas e feriu mais de 20”, e sobre a apuração das falhas que causaram o colapso da estrutura.
Continuava seu artigo, criterioso e esclarecedor, apontando todos os cuidados técnicos que devem ser tomados “a especificação correta e adequada do cobrimento de concreto em relação à armação, fundamental para não ocasionar problemas de fissuração, desplacamentos, corrosão das barras de aço e perda da capacidade resistente. Os valores mínimos do cobrimento, que dependem basicamente do elemento estrutural (laje, viga, pilar etc.) e da agressividade do meio ambiente”.
Pessoalmente sou um profundo defensor das marquises, notadamente no Rio de Janeiro, onde o sol e as chuvas, normais e abundantes, mais do que solicitam, exigem esse tipo de proteção.
Lembro-me, de quando fiz o Projeto de modificação do Hotel Marina (aquele de enorme altura e que, segundo meus alunos da Santa Ursula, é o responsável pela maior, e mais danosa, sombra na orla do Leblon e Ipanema), que não havia qualquer proteção no acesso principal do prédio. Ou seja, ou o “cara” estava dentro do Hotel, ou estava fora, fazendo sol, ou chovendo, em qualquer circunstância, sem ter uma, digamos, “ante-câmara” que permitisse que ele pudesse esperar uma condução, algum amigo que estivesse chegando, em condições mais confortáveis. Pretendi, imediatamente, propor ao proprietário do Hotel a complementação do acesso com a adoção de uma marquise. E, pra mim, uma “marquisona”, significativa, capaz de proteger e denunciar, agenciar, o acesso principal do Hotel. Ele aceitou e eu fui à luta.
Projetei a dita cuja!

Uma marquise com quase quatro metros de balanço(**), envolvendo a entrada principal e estendendo-se até o acesso de serviço. Uma puta marquise! Isso, convém esclarecer, numa edificação que já estava, a essa altura dos acontecimentos, com a estrutura totalmente executada. Ou seja, tivemos que criar condições de, apoiando na estrutura existente, “montar” essa enorme peça complementar. Claro, tudo isso, toda essa exorbitância de idéias, uma quase arrogância do Arquiteto, baseada, garantida, pela competência do Calculista, José Maria Guerra Alvariz, que resolveu todos os problemas que eu estava a criar.
(**) a parte que está na rua João Lyra, até serviu para proteger um barzinho que colocaram ali.
Nem entro no mérito se a marquise é bonita, ou feia, não é a isso que me proponho escrevendo esse texto, mas a intenção é mostrar que marquises, “Perigos Suspensos”, assuntos que causam até a diarréia mental do alcaide, que decretou o fim delas, é um problema, se for, apenas de cuidados no projetar e manutenção ao longo do tempo.
E, cá pra nós, num prédio que já tem mais de trinta anos, com uma manutenção super descuidada (quando ainda morava no Leblon, e já lá se vão mais de dez anos, várias vezes procurei a gerencia do Hotel pra falar da marquise, de sua manutenção e limpeza),não existem, qualquer evidência de degradação ou sintomas de fadiga.
A marquise, as marquises, da qual eu tanto queria falar, faz tempo, foi apenas uma das “peripécias” por que passei, na transformação, solicitada pelo proprietário de então, Luiz César Magalhães, na modificação do hotel de quatro para cinco estrelas.
Considero o que fiz no Marina, um exercício de criatividade, de quase arrogância, como poucas vezes tive que fazer. Pra mim, o maior “laboratório” que tive que exercitar. Fiz de tudo!
ADORO UMA MARQUISE!
ps 1: projeto executado entre ´74 e ´76
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